Médico propõe cálculo de proteína diária com base na massa muscular

Médico propõe cálculo de proteína diária com base na massa muscular

Uma atualização no método de estimar a ingestão diária de proteínas foi apresentada durante o Congresso Internacional de Cardiologia da Rede D’Or 2025, realizado de 7 a 9 de agosto, no Rio de Janeiro. O nutrólogo Guilherme Giorelli defende que a recomendação passe a considerar a massa muscular em vez do peso corporal total, argumentando que o modelo tradicional pode sub- ou superestimar necessidades.

Limitações do critério baseado no peso corporal

O cálculo convencional recomenda entre 0,8 e 1,2 gramas de proteína por quilo de peso. Segundo Giorelli, este critério ignora diferenças de composição corporal, género e nível de atividade física. Dois homens de 100 kg — um atleta e uma pessoa com obesidade — receberiam a mesma orientação, apesar de terem percentagens de massa magra muito distintas. Este desfasamento pode comprometer ganhos musculares em desportistas e dificultar o controlo de peso em indivíduos com excesso de gordura.

Para resolver a discrepância, o médico analisou estudos recentes, incluindo um artigo publicado no World Journal of Advance Healthcare Research em 2021. O trabalho concluiu que a massa muscular estimada é um indicador mais fiável para determinar a dose proteica diária.

Nova referência: até 6 g por quilo de músculo

Com base nas evidências reunidas, Giorelli propõe ingestões de:

• 4,2 g de proteína por quilo de músculo em homens;
• 4,7 g por quilo de músculo em mulheres.

Em contextos clínicos que exigem preservação ou recuperação de tecido magro — casos de idosos, doentes hospitalizados ou pessoas após cirurgia bariátrica — a dose pode atingir 6 g por quilo de músculo.

A estimativa da massa muscular é obtida por exames de bioimpedância. A técnica envia impulsos elétricos de baixa intensidade através do corpo para diferenciar gordura, água e tecido magro. Balanças domésticas, relógios inteligentes e equipamentos clínicos oferecem este serviço, variando em precisão conforme o número de eletrodos e frequências analisadas.

Fontes de proteína: animal e vegetal

Giorelli recorda que as proteínas devem representar 15% a 25% das calorias diárias. Seguem-se exemplos de fontes:

Origem animal: carnes vermelhas, aves, peixes, marisco, ovos, leite e derivados, além de suplementos de soro de leite (whey protein).

Origem vegetal: feijões, lentilhas, grão-de-bico, ervilhas, soja e derivados como tofu ou tempeh. Oleaginosas e sementes fornecem proteína, mas são mais ricas em gordura.

Exercício, fracionamento e suplementação

A combinação de treino de resistência e consumo adequado do macronutriente continua indispensável para aumentar ou manter massa magra. Distribuir a proteína ao longo do dia costuma maximizar a síntese muscular: 30 a 40% da quota em cada refeição principal (almoço e jantar) e o restante entre pequeno-almoço e lanches.

No entanto, estudos citados pelo nutrólogo demonstraram que a eficiência não cai drasticamente quando a ingestão ocorre numa única dose. Pacientes internados que não podiam fracionar a dieta preservaram os músculos mesmo com uma administração concentrada.

Suplementos como whey protein são recomendados quando a alimentação não atinge a meta ou quando há aumento das necessidades, por exemplo em idosos ou pós-operatórios. A formulação acelera a digestão por conter peptídeos de rápida absorção, favorecendo a entrega de aminoácidos ao tecido muscular.

Implicações para população e profissionais de saúde

A proposta pode alterar consultas de nutrição, planos de reabilitação e programas desportivos. Ao ancorar a recomendação na massa muscular, evita-se que pessoas com obesidade ingiram proteína em excesso e que atletas recebam doses insuficientes.

Giorelli sublinha que a prática clínica já orientava ganhos de massa com valores superiores aos tradicionais; a novidade está em oferecer um ponto de referência objectivo. O modelo aguarda validação em estudos de larga escala, mas o autor considera que os dados disponíveis justificam a sua aplicação em contextos específicos.

Enquanto a comunidade científica discute a adoção formal do novo critério, profissionais podem recorrer à bioimpedância para personalizar planos alimentares, garantindo aporte ajustado ao verdadeiro tecido que necessita de proteínas: o músculo.

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