Celso Amorim acusa EUA de ignorar diplomacia e critica tarifa de 50%
Brasília — O assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Celso Amorim, declarou que os Estados Unidos deixaram de recorrer à diplomacia nas recentes negociações comerciais com o Brasil, após Washington impor uma taxa de 50 % sobre produtos brasileiros.
Assessor critica postura norte-americana
Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, realizada na segunda-feira, Amorim sublinhou que «o diálogo requer duas partes» e que, neste caso, apenas o governo brasileiro demonstrou abertura para conversar. «Eles não estão a praticar diplomacia», afirmou, referindo-se à administração norte-americana.
O diplomata mencionou ainda duas notas emitidas por Washington sobre o tema. De acordo com Amorim, a segunda nota tentaria «isolar» o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes dos restantes poderes brasileiros, estratégia que classificou como uma «armadilha» à qual o Palácio do Planalto não pretende aderir.
A tarifa de 50 % foi decretada pelo presidente dos Estados Unidos e incide sobre todos os bens brasileiros que entram no mercado norte-americano. Questionado sobre o impacto da medida, Amorim reconheceu a gravidade da situação, mas frisou que o governo federal já estuda respostas para limitar as consequências económicas.
Possíveis sanções e cenário político
Durante a entrevista, o assessor foi interrogado sobre uma eventual escalada punitiva caso o ex-presidente Jair Bolsonaro — actualmente réu no STF por alegada tentativa de golpe — venha a ser condenado. Amorim considerou «absurda» a hipótese de Washington impor novas sanções com base nesse desfecho judicial, ainda que admita que o Executivo está preparado para diferentes cenários.
Para o ex-ministro das Relações Exteriores, uma «guerra comercial ou verbal» não interessa aos Estados Unidos nem ao Brasil. «O Brasil não é contra os Estados Unidos», salientou, acrescentando que as relações bilaterais deveriam permanecer no âmbito económico e institucional, sem interferir em processos internos brasileiros.
Diversificação das parcerias comerciais
Amorim explicou que a estratégia do governo passa por reduzir a dependência de mercados específicos, reforçando ligações com parceiros de várias regiões. «Os BRICS são muito importantes, mas estamos também a falar com a União Europeia, a Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA), Singapura e países da ASEAN», enumerou.
Segundo o assessor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara visitas oficiais ao Sudeste Asiático para aprofundar acordos que possam compensar eventuais perdas resultantes da tarifa norte-americana. Nas últimas semanas, o chefe de Estado conversou com os líderes da Rússia, Índia e China, procurando alinhamento político e comercial face às restrições impostas por Washington.
Críticas à abordagem de Donald Trump
Ao comentar o comportamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Amorim afirmou que uma mudança de postura seria «quase um milagre». Para o diplomata, as decisões de Trump misturam política interna brasileira com questões económicas de forma «totalmente indevida».
Ainda assim, Amorim reiterou que a equipa do Presidente da República elabora um pacote de medidas destinadas a auxiliar sectores que poderão ser mais afectados pela taxa de 50 %. Detalhes sobre incentivos ou salvaguardas fiscais deverão ser anunciados «em breve», adiantou.
Próximos passos do governo brasileiro
No plano imediato, o Itamaraty continuará a procurar canais de diálogo com a Casa Branca, mas, paralelamente, intensificará contactos multilaterais para proteger as exportações nacionais. Amorim referiu que «o Brasil tentou conversar» e que a preferência continua a ser uma solução negociada, ainda que o país esteja disposto a recorrer a organismos internacionais se necessário.
Até que exista uma revisão da tarifa, o governo brasileiro avalia mecanismos de compensação interna e novos acordos de comércio. A expectativa é mitigar efeitos em cadeias produtivas como aço, agro-indústria e bens de consumo, que dependem fortemente do mercado norte-americano.
Amorim concluiu que a diplomacia brasileira manter-se-á «firme e fria» perante a pressão externa. «Não podemos cair em provocações», declarou, lembrando que o Brasil já viveu disputas comerciais no passado e dispõe de instrumentos legais e políticos para defender os seus interesses.

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