Implante cerebral permite homem paralisado controlar iPad com pensamentos
Um doente com esclerose lateral amiotrófica (ELA) voltou a interagir de forma autónoma com tecnologia de consumo depois de receber um implante cerebral que transforma intenções motoras em comandos digitais. O dispositivo, criado pela empresa norte-americana Synchron, possibilita a navegação completa num iPad apenas através da atividade neuronal, dispensando movimentos físicos, comandos de voz ou acompanhamento ocular.
Interface cérebro-computador instalada no fluxo sanguíneo
O paciente, identificado como Mark Jackson, foi submetido à colocação do Stentrode, um stent eletrónico introduzido num vaso sanguíneo situado sobre o córtex motor. A posição permite captar sinais associados à vontade de mover membros, sem necessidade de cirurgia invasiva no tecido cerebral. Esses impulsos são transmitidos por Bluetooth para um decodificador externo colocado fora do corpo.
O procedimento faz parte de um ensaio clínico que a Synchron conduz em vários centros médicos. Na mais recente atualização, divulgada na segunda-feira, 4 de agosto, a empresa mostrou Jackson a abrir aplicações, a escrever mensagens e a ler notícias no tablet da Apple apenas a pensar nas ações.
Integração nativa com o protocolo HID da Apple
O decodificador recebe os sinais neurais e converte-os em entradas reconhecidas pelo sistema operativo iPadOS. Esta comunicação tornou-se possível graças ao protocolo Human Interface Device (HID), disponibilizado pela Apple em maio, que admite sinais cerebrais como método de entrada padrão. A ligação estabelece um circuito fechado: o iPad envia dados contextuais da interface para o decodificador, que adapta em tempo real o mapeamento dos impulsos neurais, melhorando precisão e velocidade.
Além do iPad, a solução já demonstrou compatibilidade com o iPhone e o headset Apple Vision Pro. Nos primeiros testes, voluntários utilizaram o dispositivo de realidade mista, mas reportaram algum desconforto causado pelo peso do capacete, o que levou a equipa a concentrar-se, nesta fase, no uso com tablets e smartphones.
Controlo apoiado em feedback visual da intensidade do sinal
A versão mostrada introduz uma novidade: um medidor de intensidade que surge como um contorno azul sobre o ícone ou área pretendida. A cor torna-se mais vívida quando a ligação está forte, indicando que o comando será executado com fiabilidade. Caso a tonalidade esmoreça, o utilizador pode reposicionar ligeiramente o corpo ou reforçar mentalmente a intenção motora, até restabelecer o nível necessário.
De acordo com a Synchron, este mecanismo reduz erros, acelera a seleção de elementos na interface e contribui para um uso intuitivo, mesmo em tarefas que exigem precisão, como redigir textos ou percorrer menus densos.

Imagem: tecmundo.com.br
Recuperar independência através da tecnologia
Para Jackson, a possibilidade de controlar o iPad representa uma mudança significativa. Depois de perder a mobilidade das mãos, o doente considerava ter ficado sem meios para comunicar de forma prática. «Agora consigo enviar mensagens à família, acompanhar as notícias e manter-me ligado ao mundo apenas a pensar», relatou.
A empresa realça que o sistema visa devolver autonomia a pessoas com mobilidade limitada por ELA, lesões medulares ou outras patologias neurológicas. O fundador e diretor-executivo da Synchron, Tom Oxley, descreve o resultado como «um vislumbre do futuro da interação humano-computador», no qual o pensamento poderá configurar-se como um método de controlo habitual.
Passos seguintes do ensaio clínico
O estudo prossegue com o acompanhamento de vários participantes para avaliar segurança, estabilidade do sinal e impacto na qualidade de vida. A equipa analisa ainda o potencial de miniaturização do decodificador externo e a integração com diferentes sistemas operativos, mantendo o foco em soluções que dispensem hardware especializado fora dos equipamentos de consumo.
Caso os resultados confirmem os ganhos de produtividade e autonomia já observados, a Synchron planeia solicitar aprovação regulamentar para comercialização do Stentrode em mercados selecionados. A empresa não avançou prazos, mas sublinha que o processo dependerá da validação contínua dos dados clínicos.
O avanço revela novas possibilidades de inclusão digital para pessoas com limitações motoras graves, ao mesmo tempo que abre caminho a interfaces cognitivas mais amplas em dispositivos quotidianos.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou a mente inquieta por trás do soumuitocurioso.com.
Sempre fui movida por perguntas. Desde pequena, queria saber como as coisas funcionavam, por que o céu muda de cor, o que está por trás das notícias que vemos todos os dias, ou como a tecnologia está transformando o mundo em silêncio, aos poucos. Essa curiosidade virou meu combustível — e hoje, virou um blog inteiro.