Jejum prolongado altera metabolismo e exige vigilância médica
Ficar várias horas ou dias sem comer, estratégia designada por jejum prolongado, desencadeia mudanças metabólicas que vão da utilização do glicogénio à produção de corpos cetónicos. Endocrinologistas e especialistas em nutrição clínica alertam que estas alterações podem trazer benefícios pontuais, mas também comportam riscos significativos sem supervisão profissional.
Da fase alimentada à quebra do glicogénio
Logo após a última refeição, o organismo permanece num estado alimentado, aproveitando glicose e outros nutrientes que circulam no sangue. A insulina mantém-se elevada, facilitando o armazenamento do excesso de açúcar sob a forma de glicogénio no fígado e nos músculos.
Entre três e quatro horas depois, inicia-se uma etapa de jejum em que a insulina começa a descer e o glucagon sobe. Este equilíbrio hormonal sinaliza ao fígado que liberte glicose proveniente do glicogénio para preservar níveis adequados no sangue. Em média, estas reservas garantem combustível durante 12 a 24 horas, dependendo da actividade física e da quantidade de glicogénio previamente acumulada.
Mudança para a gordura como fonte principal de energia
Quando as reservas de glicogénio se aproximam do fim, o organismo necessita de um novo substrato energético. O fígado converte a gordura armazenada em corpos cetónicos, moléculas capazes de alimentar quase todos os tecidos, incluindo o cérebro. Este processo, conhecido como cetose, marca uma adaptação metabólica fundamental do jejum prolongado.
Além da cetose, o corpo activa a gliconeogénese, mecanismo que sintetiza glicose a partir de aminoácidos e ácidos gordos para satisfazer funções vitais que dependem desse açúcar. Paralelamente, ocorre autofagia, sistema de reciclagem celular que elimina componentes danificados e pode contribuir para a longevidade, segundo os especialistas.
Sinais de alerta e riscos clínicos
A prática sem acompanhamento médico pode culminar em desidratação, desequilíbrio electrolítico, arritmias, insuficiência renal ou hipoglicemia grave. Os especialistas indicam ainda perda de massa muscular, défices nutricionais e a síndrome de realimentação — complicação potencialmente fatal que surge quando a ingestão de alimentos é retomada de forma inadequada após um período prolongado de abstinência.
Fadiga extrema, tonturas persistentes, fraqueza muscular acentuada, dores de cabeça intensas, náuseas, palpitações e confusão mental são sinais de que o jejum pode estar a ultrapassar limites seguros. Em casos extremos, o organismo começa a consumir proteínas de órgãos vitais, aumentando o risco de falência multiorgânica.
Benefícios concentrados em protocolos mais curtos
Evidências consistentes apontam sobretudo para regimes de jejum intermitente — períodos de 12 a 24 horas — associados a melhor sensibilidade à insulina, redução da massa gorda, diminuição da pressão arterial e melhoria do perfil lipídico. Protocolos superiores a 48 horas continuam sem consenso científico quanto às vantagens e apresentam uma margem de segurança menor.
Para pessoas saudáveis, bem hidratadas e acompanhadas por profissionais, o jejum prolongado pode potenciar a sensibilidade à insulina e reduzir marcadores inflamatórios. Contudo, indivíduos com doenças crónicas, perturbações metabólicas ou necessidades nutricionais específicas enfrentam maior probabilidade de efeitos adversos. Por essa razão, endocrinologistas e nutricionistas sublinham a importância de avaliação médica prévia, planeamento individualizado e monitorização regular durante todo o processo.
Em síntese, o jejum prolongado representa uma ferramenta metabólica potente que altera profundamente a forma como o organismo gera energia. Esta prática pode oferecer benefícios limitados a determinados perfis, mas deve ser encarada com cautela devido aos riscos envolvidos. A supervisão profissional continua a ser o elemento-chave para equilibrar potenciais ganhos e eventuais complicações.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou a mente inquieta por trás do soumuitocurioso.com.
Sempre fui movida por perguntas. Desde pequena, queria saber como as coisas funcionavam, por que o céu muda de cor, o que está por trás das notícias que vemos todos os dias, ou como a tecnologia está transformando o mundo em silêncio, aos poucos. Essa curiosidade virou meu combustível — e hoje, virou um blog inteiro.