Pacientes recebem fígado e rim na mesma cirurgia para travar falência multiorgânica
Casos como o de Fausto Silva, de 75 anos, que passou esta semana por um transplante de fígado combinado com um retransplante renal, ilustram um procedimento ainda pouco comum, mas vital para doentes com falência simultânea de órgãos. A intervenção, designada transplante simultâneo, substitui dois ou mais órgãos sólidos numa única operação, reduzindo o risco de complicações e melhorando a sobrevida.
Quando se opta por transplantes múltiplos
De acordo com Marcus Eduardo Martins da Costa, coordenador da Cirurgia Geral e da Equipa de Transplante de Órgãos da Rede Mater Dei de Saúde, a principal indicação é a falência concomitante de sistemas essenciais, situação em que a realização de cirurgias separadas aumentaria o perigo para o doente. Existem, porém, cenários específicos em que uma doença metabólica obriga à substituição de dois órgãos: o fígado é implantado para corrigir o erro metabólico e, em simultâneo, o rim é transplantado para evitar que a nova função hepática seja comprometida a médio prazo.
Um exemplo frequente envolve doentes com patologia hepática avançada que desenvolvem insuficiência renal dialítica. Nestes casos, a substituição simultânea de fígado e rim oferece melhores perspetivas de recuperação do que procedimentos realizados em etapas distintas.
Combinações mais comuns e dados de sobrevivência
Segundo Wellington Andraus, chefe do Serviço de Transplante de Órgãos do Aparelho Digestivo do Hospital das Clínicas de São Paulo, a associação de pâncreas e rim é a forma mais habitual de transplante múltiplo, sobretudo em pessoas com diabetes. Combinações envolvendo coração e fígado ou pulmão e fígado ocorrem com menor frequência, mas podem ser necessárias quando a degradação funcional se estende a mais de um sistema vital.
A experiência clínica demonstra que a grande maioria dos recetores de fígado alcança boa qualidade de vida após a cirurgia. Ainda assim, um pequeno grupo apresenta disfunção renal pré-existente, que pode agravar-se devido ao uso prolongado de imunossupressores. Nestes casos, o transplante de rim posterior ou simultâneo torna-se inevitável.
Os resultados atuais são considerados encorajadores. Dados citados por Andraus apontam para uma taxa de sobrevida superior a 80 % ao fim de um ano após transplante hepático e acima de 70 % aos cinco anos. Mesmo em intervenções que conjugam fígado e rim, os indicadores mantêm-se dentro destes patamares.

Imagem: noticiasaominuto.com.br
Recuperação, riscos e papel da doação
Embora os transplantes múltiplos apresentem pós-operatório mais prolongado e riscos acrescidos de infeção ou rejeição, especialistas referem «resultados fantásticos» quando o procedimento é realizado em centros habilitados e o estado clínico do doente é estabilizado antes da operação. A monitorização intensiva nas primeiras semanas e o ajuste rigoroso da terapêutica imunossupressora são decisivos para evitar falhas de enxerto.
A disponibilidade de órgãos compatíveis continua, no entanto, a ser o maior desafio. Em Portugal, como noutros países, a doação depende do consentimento familiar, motivo pelo qual as autoridades de saúde aconselham que cada cidadão manifeste a sua vontade em vida. Mesmo quando existe registo documental, a confirmação com os parentes é determinante para que a colheita avance.
À medida que a técnica evolui e as equipas cirúrgicas acumulam experiência, espera-se que a taxa de sucesso dos transplantes simultâneos seja ainda mais elevada. Para os doentes com falência multiorgânica, receber dois órgãos na mesma cirurgia representa, muitas vezes, a única via para retomar uma vida funcional.

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