Refém israelita relata 505 dias em cativeiro do Hamas durante visita a São Paulo
O israelita Omer Shem Tov, de 22 anos, descreveu em São Paulo os 505 dias que passou como refém do Hamas na Faixa de Gaza. O jovem foi sequestrado durante o ataque de 7 de outubro de 2023 a um festival de música eletrónica, perto da fronteira entre Israel e Gaza, onde se encontravam mais de quatro mil pessoas.
Sequestro no festival e transporte para Gaza
Omer, então com 20 anos, tentou fugir de carro com amigos ao ouvir disparos. O grupo foi cercado e capturado por militantes do Hamas. Segundo autoridades israelitas, cerca de 250 pessoas foram sequestradas nesse dia e aproximadamente 1 200 morreram, algumas atingidas pelo fogo cruzado entre atacantes e forças israelitas.
O refém recorda ter sido levado para Gaza através de túneis utilizados pelo grupo. No cativeiro, foi colocado numa jaula onde não conseguia ficar de pé nem esticar os braços. Durante quase dois meses permaneceu às escuras, recebendo apenas pedaços de pão e água salgada. Sem banho durante 90 dias, conviveu com sujidade constante e fome prolongada.
Tortura psicológica e estratégias de sobrevivência
Além das condições físicas, Omer relatou tortura psicológica frequente. Guardas afirmavam que a família o teria abandonado, tentando quebrar-lhe o moral. Para preservar a sanidade, o jovem passou a rezar diariamente, apesar de não ser praticante antes do sequestro. Também procurou dialogar com alguns sequestradores; num caso, cantou para um deles após descobrirem gosto musical comum.
Omer admite que se preparou mentalmente para a morte, embora mantivesse a esperança de regressar a casa. A fé improvisada e pequenos contactos humanos ajudaram-no a suportar o isolamento.
Libertação e reencontro com a família
O refém foi libertado em fevereiro de 2024, durante uma troca acordada entre Israel e o Hamas. Ao sair do veículo que o transportava, viu milícias armadas e civis gazenses a assistirem a uma espécie de cerimónia organizada pelo grupo. Do cativeiro, apenas dois sequestradores acompanharam a libertação; choravam ao ver os prisioneiros partirem, relatou.
No regresso a Israel, Omer reencontrou os pais num centro médico. Disse ter sido abraçado enquanto a família chorava de alívio. No trajecto de helicóptero, observou milhares de pessoas nas ruas com cartazes de boas-vindas.

Imagem: metropoles.com
Impacto pessoal e apelo por outros reféns
Apesar de livre, o jovem reconhece sequelas duradouras. “Não sei se isto vai embora; ficará comigo para o resto da vida”, disse. Destacou que ainda existem cerca de 50 reféns israelitas em Gaza, dos quais pelo menos 20 estariam vivos. “Conheço a dor deles”, afirmou, pedindo esforços internacionais pela libertação.
Contexto do conflito e situação humanitária em Gaza
O ataque de 7 de outubro levou Israel a lançar uma ofensiva militar sustentada na Faixa de Gaza. A Organização das Nações Unidas calcula que 87 % do enclave seja hoje zona militar. De acordo com o Ministério da Saúde local, mais de 60 000 palestinianos, sobretudo mulheres e crianças, morreram até julho de 2024, enquanto cerca de 470 000 pessoas enfrentam escassez extrema de alimentos.
Na última quinta-feira, o gabinete de segurança israelita aprovou o plano do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para ocupar plenamente o território, prevendo a deslocação de civis palestinianos para áreas centrais.
Brasil como símbolo de esperança
No momento do sequestro, Omer vestia uma camisola da seleção brasileira, que considera “talismã”. Durante a visita a São Paulo, afirmou sentir ligação especial ao país pelas cores, energia e hospitalidade. Mostrou-se disposto a regressar para conhecer o litoral e assistir a partidas de futebol.
Ao terminar os encontros com a comunidade judaica paulistana, o ex-refém sublinhou a necessidade de “espalhar amor, não ódio”, independentemente de nacionalidade ou religião. Insistiu em que a compaixão é o único caminho viável para interromper o ciclo de violência e assegurar o regresso dos reféns que permanecem em Gaza.

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